Segundo a Pele

Segundo a Pele


miska

Hoje fui a uma loja de roupas dessas grandes, cheias de araras e possibilidades, em busca de novos “disfarces”. As peças que eu costumava usar para compor minhas identidades alternativas já estavam ficando gastas, repetidas demais. Era hora de renovar o arsenal, por assim dizer.

Enquanto me aventurava naquele mar de tecidos, cortes e estilos, fui surpreendida por uma lembrança que me tomou de forma tão súbita quanto doce: os dias em que eu comprava roupas para você. Você sempre adorava cada peça, como se eu tivesse um dom especial para acertar seu gosto. E, ao me agradecer, me dava aqueles abraços apertados e um beijo estalado na bochecha — singelos gestos que carregavam um carinho sem medidas. Era tão bom.

E foi nesse instante que uma ideia me atravessou a mente.

Sempre que te vejo, você está com aquele seu visual tão marcante — um terno, elegante e simples. No início, achei que fosse só traje de trabalho, mas logo percebi que era mais do que isso: era seu jeito de se apresentar ao mundo, sua assinatura silenciosa. Um estilo só seu.

Então resolvi fazer algo curioso… e, de certa forma, simbólico.

Comprei um conjunto inspirado em você: um colete branco, calça no mesmo tom, camisa social preta e sapatilhas pretas. Arrematei com um chapéu branco e uma máscara de proteção igualmente preta — quase como se eu estivesse montando uma versão minha que pudesse caminhar um pouco ao seu lado, mesmo que metaforicamente.

Talvez tenha sido uma tentativa de me sentir mais próxima de você. Algo parecido com o que sinto quando compro tangerinas, aquele ritual simples que me ancora em você.

Saiu caro, mas valeu cada centavo.

Quando cheguei em casa, corri para o quarto e comecei a experimentar tudo, peça por peça, como se estivesse me fantasiando de você, ou de alguma versão idealizada de nós duas fundidas. Era bonito, esteticamente falando. Mas preciso admitir, com toda a honestidade do mundo: eu realmente não faço ideia de como você consegue usar isso com tanta naturalidade.

Não é uma crítica, claro. Seus gostos sempre foram um reflexo do seu jeito especial de ser — e eu amo isso em você. Mas, meu Deus, que roupa quente! O tecido parecia me abraçar com mais fervor do que o necessário. Dei uma risadinha sozinha ao perceber isso. Acho que era o calor e a saudade brincando comigo.

Eu, pessoalmente, não me vejo usando esse look pela rua sem parecer uma cópia deslocada de alguém melhor. Mas, ainda assim, eu me sacrificaria por você. Até mesmo enfrentaria o calor e o desconforto, só pra me sentir mais próxima da mulher maravilhosa que você se tornou.

No fim das contas, acho que essa pequena experiência me fez enxergar ainda mais como você é única. Seu estilo não é só uma questão estética, é uma identidade.

Enfim… depois disso, decidi ir até uma lanchonete. Só queria lanchar, beber alguma coisa, me afundar nos pequenos prazeres mundanos, você sabe como é. Às vezes, simplesmente deixar o corpo e a mente extravasarem parece não ser um pecado tão grande. O álcool, naquele momento, funcionou como aquele empurrãozinho que a gente sabe que vai cobrar o preço depois, mas aceita mesmo assim.

O que é meio irônico, considerando que eu aprendi da forma mais amarga a desprezar a bebida. E você sabe muito bem do que estou falando, não sabe, Miska? Além do mais, nós duas atravessamos o inferno lado a lado.

Mas… bem… chega um ponto em que a gente cansa de sustentar o peso de tudo. E foi aí que eu resolvi experimentar a sofisticada arte de simplesmente ligar o foda-se.

Então, eu resolvi encher a cara.

Bebi pra caramba, pra ser honesta. Parte de mim se arrepende, a outra, nem tanto. Foi libertador de certa maneira. A bebida me soltou, desamarrando os nós apertados que eu nem percebia mais. Acabei conversando com um monte de gente que nunca vi na vida, rindo à toa. Até assisti parte de um jogo de basquete que passava na TV da lanchonete. E, surpreendentemente, era um jogo eletrizante. Por alguns minutos, parecia que eu não carregava nada nos ombros além daquele copo.

Mas claro, toda ação traz reação. A ressaca chegou antes mesmo da noite terminar. A dor de cabeça era tão intensa que parecia que meu crânio estava tentando se abrir à força. Minha visão ficou turva, as pernas não obedeciam direito, e voltar pra casa virou uma missão quase épica.

O caminho era longo. E, como numa daquelas ironias malcriadas do destino, acabei passando pela sua casa.

Olha, filha… foi uma cena absolutamente patética. Sua mãe cambaleando, descabelada, suada de cansaço e álcool, passando na frente da sua casa como se tivesse saído de um filme sobre fracassos pessoais às duas da madrugada. Ridículo, eu sei. E o pior? Dei risada. Simplesmente ri da situação. Vai ver o álcool ainda não tinha ido embora por completo.

Mas o que me deixou de fato inquieta foi algo que aconteceu logo depois.

Enquanto passava por ali, tive a estranha impressão de ver um homem parado bem na frente da sua casa. Fiquei gelada. Ele parecia nervoso — os punhos tremiam, o olhar oscilava. Quando ele me viu, reagiu como se tivesse sido flagrado num crime: virou e correu, sumindo na escuridão da rua como se fosse parte dela.

Tentei balançar a cabeça, limpar a visão e me certificar. Ele desapareceu completamente como se nem tivesse estado ali.

Talvez tenha sido efeito da bebida.

Agora, eu me pergunto: você me perdoaria, filha, por beber tanto assim? Haha…


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